quinta-feira, 1 de julho de 2010

Era uma vez um rufina e um dragão


Era uma vez, no tempo em que desejar ajudava muito, três irmãos. Os dois maiores eram enormes mas cagarolas gabarolas. O pequenino, porém, não tinha medo de ninguém. Chamava-se Rufina. Era audaz, corajoso e justo; por isso todos gostavam dele. Diziam: tão pequeno que é e que grande alma tem!

De tanto ouvirem esta arenga, os mais velhos encheram-se de ferruncho, e elaboraram um plano p’ra se verem livres do mano. Vem cá petiz - disseram-lhe dessa feita; e levaram-no para o canto mais negro da floresta. Ali lhe lançaram o mote: se voltares a assentar pés neste lugar tudo faremos para te matar!; e abandonaram-no sem norte nem rumo, perdido à sua sorte.

Rufina avançou entre o arvoredo e foi ter a uma aldeia onde as casas estavam cobertas de negro. Que pesar, viver assim num lugar sem cor. Porque será? - quis saber. Contaram-lhe então, e havia uma justa razão. É que, nos arredores do burgo, dominando a torre de fogo que se avistava no horizonte, ao fundo, vivia um dragão gigante e malvado. Uma vez em cada ano descia à aldeia, levava um menino e trancava-o no cimo da torre. Alimentava-o sete vezes ao dia, durante três dias - só guloseimas e porcarias - e depois, fazia com ele uma espetada e comia-o sem deixar nada. Esta, era a única maneira de evitar que o dragão comesse a aldeia inteira.

Nesse ano fora fadada a princesa Alice. O Rei estava desfeito e todos os aldeões, do mesmo jeito, não faziam senão chorar: quem nos vai valer? Quem a vai salvar? Era de partir até um coração de pedra. Mas o rapaz, corajoso, dispôs-se no mesmo instante, a enfrentar o gigante. Foi preparada a ida, em festa - todos gritavam vivas e urras; e o Rei encheu-se de alento e ofereceu a mão da filha em casamento, ao Rufina, se o rapaz fosse e trouxesse a menina.

Partiu lesto e, à saída da aldeia, cruzou-se com um modesto estoura-vergas que lhe disse: se vais salvar a nossa Alice, toma esta pele de cabra, esta tira de couro e este novelo de corda, é tudo o que me sobra. Que te valha!; Para que serve essa tralha? – pensou o rapaz. Deve estar louco!; Se não recusou a oferta foi por pouco. Mas percebeu, a tempo, um certo brilho no olhar do vadio, aceitou grato o presente e seguiu.

Foi andando. Ia já longamente pelo caminho quando empeçou numa esteva de silva. Era uma pernada afoita que avançava pela estrada. Ia para a atirar ao ribeiro, mas o ramo pediu: não me afogues, leva-me antes contigo!; e o Rufina assim fez.

Andou mais um bocado. De repente tropeçou num tronco de castanheiro, posto em cheio no meio do carreiro. Que perigo! – pensou; Vou cortá-lo! Dessa maneira posso fazer uma fogueira à noite quando vier o frio. Mas o tronco pediu: não me queimes, leva-me antes contigo!; e o Rufina assim fez e retomou a sua demanda sem mais delongas.

Ao anoitecer chegou finalmente à torre de fogo. Que grande torre! Que alta! E que porta tão pesada! Pôs-se lá dentro em menos de nada. O dragão estava a dormir, por isso pode subir sem risco até ao topo, à porta do quarto da prisioneira. Mas, pendurado na ombreira, havia um sino mágico que, quando o Rufina foi para levantar o trinco, começou a tocar com afinco: dlim-dlim-dlim rufina-rufim, aqui mesmo ao pé de mim! Foi tão forte o repique que o dragão acordou: quem está aí? Quem se aproxima de ti, querido sininho? Maçam-te ou é tudo mimo? Bem sabes como te estimo. Vá, não me amoles! Estou com um sono do tamanho de sete dias!; e voltou a adormecer.

Então o Rufina, longe de ceder ao susto fez novo esforço. Aproximou-se muito devagarinho e foi pegar no trinco com cautela. Mas o sino insistiu: dlim-dlim-dlim rufina-rufim, aqui mesmo ao pé de mim! - com quanta força pode ter um trinar. Já me estás a chatear! – disse de lá o dragão. É preciso ir aí? Bem sabes quanto gosto de ti! Deixa-te de birra, estou com um sono do tamanho de sete dias! E como o rapaz recuasse aflito, perante semelhante grito, o sino parou e o dragão voltou a dormir.

Mas à terceira, foi maior ainda a barulheira: dlim-dlim-dlim rufina-rufim, aqui mesmo ao pé de mim! - ensurdecedora! Sem demora, veio de lá o dragão, pegou no sino e aventou-o ao chão: ai não me deixas dormir? Pois não te deixo tinir, desgraçado!; e voltou para a cama amuado. Nem sequer viu o Rufina.

O sino, triste e sentido, tocou então deste jeito: dlim-dlão-dlim-dlão, dorme dragão!; e assim o Rufina entrou no quarto da menina para a salvar. Viu a princesa Alice: que bela! - ainda disse; mas saiu logo com ela a fugir dali, com quanto presto tinha. Já se pensava em segurança e gritou assim: Olá! Olá! Dragão calaceiro! Vais dormir o dia inteiro? Olha que te foge o jantar! E se alguém te perguntar quem o levou podes dizer que fui eu, com licença do sino que te perdeu!

Ouvindo isto o Dragão rugiu de raiva fazendo tremer a terra em redor e voou à caça do atrevido. Anda cá que eu já te digo!; Avançava à velocidade do vento e já ia quase para os agarrar, mas o rapaz, destemido, lembrou-se do tronco de castanheiro que trazia consigo e lançou-o ao dragão. Toma! – gritou. Mas o comilão abriu a bocarra e papou o tronco sem sequer mastigar. Que tronco delicioso! – disse cheio de avidez; E a seguir papo dois meninos de uma vez! O engolir abrandou-lhe o passo mas logo seguiu no encalço dos garotos e novamente se aproximou deles. Já lhe sentiam o bafo quente, a ferver, rente. Mas o Rufina, audaz, sacou da esteva de silva e: Zás! - aventou-a ao monstro. Só que o glutão abriu a bocarra e engoliu a esteva em três tempos, mesmo sem usar os dentes. Que esteva deliciosa! – disse cheio de avidez; E a seguir papo dois meninos de uma vez! Continuando a perseguição.

O caso estava mal parado e o Rufina já se via perdido quando se lembrou do mendigo e dos presentes que lhe dera. Assim, atirou a tira de couro que o dragão comeu sem se deter, lançou o novelo de corda que o gigante papou sem descanso e, por fim, largou a pele de cabra. Dessa vez o dragão abriu tanto a boca que até se lhe viu o estômago pejado de tronco de castanheiro, esteva de silva, tira de couro e novelo de corda. E mal a pele de cabra lhe chegou à barriga ouviu-se um estrondo e o dragão transformou-se num bombo. Assim se salvaram o Rufina e a menina.

Na aldeia já os julgavam comidos e depois de muito chorar deixaram de os esperar. Mas o estoura-vergas não perdeu a fé e ia todos os dias, pelo seu pé, ao encontro deles a ver se os via. Dessa vez encontrou-os mesmo e os três entraram na aldeia a cantar vitória, pondo fim a esta história. À frente ia o Rufina a tocar bombo e atrás o estoura-vergas com a princesa Alice ao ombro. Reinaram e viveram felizes para sempre.

Acabou-se o conto e foi o princípio de uma aldeia.

Sem comentários:

Enviar um comentário